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Sobre a razão última para a irresponsabilidade discursiva (ou para toda e qualquer irresponsabilidade)

A cisão entre as esferas pública e privada da vida social é a razão objetiva mais determinante para que se engendre a irresponsabilidade discursiva. Esta cisão tem como princípio uma ideia de liberdade individualizante e contracoletivista, sob a égide uma ideologia da independência do indivíduo diante dos outros que socialmente organizados o cerca. Trata-se de uma liberdade que se pretende alheia a toda forma de consequência que extrapole o próprio indivíduo. O que se tem aqui é a crença de que as ações realizadas na dimensão privada de nossas vidas não exerceriam qualquer tipo de influência mais relevante na dimensão pública destas. Partimos do pressuposto, contudo, de que os atos praticados na mais absoluta intimidade de um indivíduo que não terão qualquer implicação com atos praticados de forma interativa com outros se dão em menor quantidade do que aqueles que terão alguma implicação. Isto se dá em virtude de uma premissa fundamental: de que não há qualquer formação subjetiva individual que não seja o efeito ou produto de um conjunto de variantes socioculturais prévias (Não queremos dizer com isto que as variantes socioculturais sejam as únicas. Dados biológicos também são determinantes e assim devem ser vistos). De modo que mesmo o ato mais secreto, mais íntimo é levado a cabo por um indivíduo socialmente constituído e este ato liga-se inexoravelmente a um continuum de atos posteriores que ocorrerão, mais cedo ou mais tarde, em alguma esfera interativa. Sequer Robinson Crusoé escapou do destino da coexistência e interação com canibais. Não há como sustentar a ideia de um ato privado absoluto. Isto equivaleria a conceber um indivíduo para além do reino da necessidade. Rômulo precisou de Remo; e posteriormente, Tarzan precisou dos Mangani. Da necessidade decorre a sociabilidade – responsável, desde os tempos mais pretéritos, pela manutenção da espécie humana em solo terrestre. Assim, mesmo quando satisfazemos as necessidades fisiológicas mais primordiais nos vemos vinculado a uma totalidade social mais ampla que estipulou a um determinado grupo de pessoas a tarefa de, por exemplo, construir vasos sanitários. E, se após utilizá-los, abstenho-me de refletir sobre o ato e questioná-lo em público, terei então me tornado mais um elo na corrente de manutenção e legitimação da prática de tal uso. O exemplo pode parecer hiperbólico ou prosaico. Não o é. Mencionemos aqui o best-seller alemão Darm mit Charme (Intestino com charme [tradução livre]) de Giulia Enders, cujo tema central é precisamente o funcionamento deste órgão e que já logo em seu primeiro capítulo nos coloca a seguinte pergunta como título de uma subseção: Sitze ich richtig auf dem Klo? (Sento-me corretamente no vaso? [tradução livre]). E poderíamos aqui citar tantos outros exemplos. Seja por meio de uma ação positiva, seja por meio de sua ausência – consciente ou não – seremos inexoravelmente parte de uma corrente de continuidade ou descontinuidade de um determinado estado de coisas. Repitamos: não há como sustentar a ideia de um ato privado absoluto; bem como não há como sustentar uma ideia de liberdade privada que não tenha consequências na manutenção ou questionamento de estados de coisas e fenômenos que são comuns a todos. É o postulado do inverso da sentença anterior que engendra práticas irresponsáveis – e não seria diferente quando estamos a lidar com atos discursivos.
 
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