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Do apagamento discursivo do sujeito

Há uma tendência comum de se converter o olhar próprio da parte em lógica própria do todo. Como já sabido, qualquer sentença pronunciada é precedida por um "eu digo que", mas há um apagamento do sujeito ainda mais sutil. Quando se diz "as pessoas só falam de X", está se dizendo na realidade "de tudo aquilo que as pessoas falam, X é o que mais tem me interessado. Isto na vastíssima maioria dos casos não é compreendido conscientemente pelo próprio falante. Seu olhar específico de um determinado aspecto da realidade codifica-a como sendo o mais relevante para todo os outros atores sociais, e isto é o que podemos chamar de apagamento discursivo do sujeito.

Quando se diz "o que há de mais fundamental quanto a X é Y", está se dizendo na realidade "de tudo o que há de fundamental quanto a X, considero o mais fundamental Y". Os exemplos são infinitos. Isto já foi identificado como a estratégia discursiva ideológica da universalização, em que o particular se apresenta como o universal. O que pretendemos destacar aqui é a vinculação deste mecanismo discursivo com a responsabilidade discursiva do enunciador. Trata-se aqui da postura de anular a si para validar o valor objetivo do que se diz - ironicamente, algo como a neutralidade que se espera, por exemplo, no campo das práticas científicas rigorosas. De especial para nossa reflexão é perceber que este apagamento discursivo do sujeito contribui para a imagem que o enunciador faz de si mesmo de não comprometimento com aquilo que é enunciado. E aqui encontramos um nível ainda mais profundo em comparação àquele para o qual vale o lugar comum: sou responsável pelo que digo, e não pelo que se entende. Ao menos sobre este, tem-se a noção de que a fala pressupõe um falante - independente dos interlocutores. No caso do apagamento, nem isto. Do alto de sua parcialidade, diz o sujeito: eis a realidade tal qual como ela é. Compartilham-se assim realidades que de apagamento em apagamento acabam por se transformarem em um todo quase que dogmático, uma verdade objetiva aforística, sem sujeitos aos quais se possa ser atribuída qualquer responsabilidade.
 
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