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Sobre o imperativo ético discursivo

Eis o imperativo ético discursivo: age de tal modo a prever uma quantidade máxima de consequências decorrentes do seu ato discursivo; conquanto seja impossível fazê-lo com todas. Diante de tal imperativo, coloca-se a questão sobre os mecanismos mentais através dos quais esta previsão poderá se realizar. Para o analista, filósofo, pesquisador do discurso, linguista etc. alinhado com uma perspectiva materialista diante dos fenômenos linguísticos não seria de toda dificuldade situar um ato individual discursivo em seu contexto histórico concreto de realização. É tão somente a partir desta perspectiva que a realidade material não-verbal e uma produção simbólica verbal passam a ser então vistas como estabelecendo entre si uma relação dialética - o meio a um mesmo tempo se vê refletido e refratado pelo ato individual discursivo por ele engendrado. De posse de um inventário acerca das circunstâncias deste ato - já entendido previamente em termos teóricos como sendo ele próprio parte constitutiva da realidade em que se encontra - é possível então esboçar um espectro mínimo de previsibilidade. Como poderia então este espectro mínimo poderia ser transposto às práticas cotidianas, realizadas não por analistas, filósofos, pesquisadores do discurso ou linguistas?

Para encararmos a questão, devemos desde já partir do pressuposto de que há nas sociedades instituições de formação às quais se atribui a responsabilidade de uma formação discursiva (em seus traços morais, cívicos, intelectuais etc.). Certamente há outras que não trazem para si tal tarefa; não obstante, em virtude do raio de influência que dispõem os produtos simbólicos por estas produzidas e transmitidas, acabam também por serem em si uma instituição de formação. O mais destacado exemplo disto são os grandes complexos midiáticos hegemônicos. Uma em especial, porém, apresenta-se como a instituição de maior importância e é para ela que devemos lançar nossos olhares se desejamos que o imperativo ético discursivo seja instruído a um número máximo possível de indivíduos.

Trata-se da escola, entendida aqui em sua acepção a mais democrática possível, cabendo ao Estado a obrigação de provê-la a todos os estamentos sociais. Pois, ainda que possamos falar em um sem número de instituições de formação, a escola é a primeira a qual em tese um indivíduo passa a pertencer já em seus primeiros anos de vida. Seria cabível argumentar que a família possa talvez ter uma importância maior do que esta; no entanto, se pensarmos idealmente, uma escola que se proponha a formar indivíduos a partir de um critério X, se efetiva em sua missão, fará com que as próximas gerações sejam em casa ensinadas a partir deste mesmo critério X. Daí entendermos a escola democrática e universal como a fundamentação institucional última quando se trata da formação discursiva de indivíduos de uma sociedade.

Portanto, todo o exercício de reflexão teórica (que, em si, não se ausenta de ser uma prática social) que postule o imperativo ético discursivo como sendo válido e desejado deve identificar na escola a instância material social responsável pelo processo de tomada de consciência acerca da responsabilidade discursiva que cabe a qualquer indivíduo em suas produções linguísticas. Este processo de tomada de consciência torna-se ainda mais necessário quando nos deparamos com a hegemonia da forma de consciência burguesa que toma como centro a ideia de indivíduo e o converte à medida de todas as coisas. Uma forma de consciência que não entende um indivíduo como estando diretamente vinculado a seus semelhantes em uma relação de dependência contínua e inexorável, cujos atos particulares isolados tem suas consequências dissipadas por todo o tecido social que o engendra, não pode assumir para si o que aqui chamamos de responsabilidade discursiva - salvo em condutas tipificadas.
 
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