Social Icons

Sobre a necessidade de se pensar na responsabilidade discursiva

Podemos dizer que nossa realidade histórica contemporânea apresenta quatro dimensões a partir das quais se concebe a justificativa da necessidade de se falar em responsabilidade discursiva. Tratam-se das dimensões técnica, simbólica, política e moral. Evidentemente, temos aqui tão somente um recorte para fins de análise, de modo que tais instâncias se imiscuem e se sobrepõem umas às outras quando das práticas sociais concretas. Tratemos destas uma a uma.

Em primeiro lugar, quando falamos de uma dimensão técnica, nos referimos ao desenvolvimento e ampliação dos meios de comunicação e de interação social que permitiram que o conteúdo de uma determinada produção linguística pudesse atingir um número incalculável de receptores. E quando me refiro a tais desenvolvimento e ampliação, é possível que estes adjetivos sejam compreendidos de dois modos. De início, seria possível argumentar que desde a invenção da imprensa a humanidade se depara com um instrumental para a comunicação que não permite calcular precisamente a quantidade de receptores de seus conteúdos. Isto é correto. Se tomarmos este momento histórico como plano de fundo para análise, já seria possível dizer que um método de verificação das responsabilidades individuais e institucionais quanto à manutenção deste ou daquele discurso à época seria relevante. Em termos absolutos, desde os primórdios da humanidade a linguagem exerceu um papel de ordenação social – de modo que todos os indivíduos foram e sempre serão em alguma medida responsáveis pela configuração social que os cerca. No que consistiria então a particularidade da contemporaneidade quando se pensa em responsabilidade discursiva? O dado histórico que aqui nos interessa é a possibilidade de que um número cada vez maior se torne um produtor de conteúdos, conteúdos estes que atingem um sem número de receptores. Em tempos pretéritos, nem todos podiam converter seus pensamentos em livros com a ajuda da pena, nem todos podiam realizar seus sermões, nem todos podiam dispor de um espaço no rádio, televisão ou jornal. Atualmente, entretanto, em alguns minutos e qualquer texto já se encontra disponível na rede, sendo facilmente reproduzido. E, a depender das estratégias de divulgação adotadas – muitas delas bastantes semelhantes àquelas utilizadas nos meios tradicionais de comunicação em massa – este texto poderá ser acessado por dezenas, centenas, milhares de outros indivíduos. Esta simples constatação, evidente até certo ponto, nos leva ao seguinte argumento: contemporaneamente, em virtude de um aumento das possibilidades de produção de conteúdo, bem como de suas massivas recepções, torna-se ainda mais imperativo que avaliemos os diferentes graus de responsabilidade que podem ser imputados aos indivíduos produtores destes conteúdos. Pois este quantitativo de produtores corresponde a um dado até certo ponto inédito. Por isso dizemos que a dimensão técnica, responsável pelo aumento deste quantitativo, é um dos pontos de partida para justificarmos a necessidade de se pensar na responsabilidade discursiva.

Em segundo lugar, a dimensão simbólica. Conforme expresso anteriormente, desde o início dos tempos a realidade compõem-se não somente por uma dimensão física, mas por uma dimensão simbólica. Neste sentido, a distinção marxista entre estrutura e superestrutura se torna aqui é fecunda para nossa reflexão. Hoje nos parece evidente que entre estas duas estabeleça uma relação dialética – de modo que já não cabe mais aquele determinismo mecanicista que por certo período de tempo teve vez que pregava ser a realidade simbólica um mero reflexo da realidade “física”. Para cidadão médio, para o senso comum, no entanto, ainda parece pouco óbvia a relação que se estabelece entre um conjunto de produções discursivas e a manutenção de estruturas de opressão, discriminação e assimetria de poder que são por estas produções mantidas e legitimadas. E o dado contemporâneo que mais nos parece relevante, e que foi muito bem descrito por Gramsci através de seu conceito de hegemonia, é que as formas tradicionais de dominação por meio da força bruta, da violência, em tempos mais recentes adquirem não mais tais formas, mas se dão por meio de consentimento, de convencimento. Dito de outro modo, indivíduos já não são mais oprimidos porque sobre eles há quem empunhe um chicote ou uma arma; estes mesmos indivíduos concebem o mundo de tal forma que apregoam eles próprios – com sorrisos nos lábios – que tais dominações sejam válidas, necessárias justas. Relevante destacarmos, portanto, a centralidade do conceito de ideologia para Marx e a validade de sua assertiva quando este diz que as ideias dominantes de uma determinada sociedade são precisamente as ideias da classe dominante. Marx, portanto, já conseguia vislumbrar, já no século XIX a inexorável relação entre os grupos dominantes de sociedade num momento histórico e as produções simbólicas em circulação neste mesmo momento. Esta é a ideia por trás de todo um movimento que vem ocorrendo nas sociedades ocidentais no sentido de lançar olhares críticas sobre produções discursivas que sejam discriminatórias – especialmente aquelas que, por exemplo, costumam vir travestidas de humor. Isto nos leva a um debate cada vez mais frequente entre “produtores” e “avaliadores” de discursos, de modo que muitos não conseguem apreender a relação que se estabelece, por exemplo, entre uma piada machista e a manutenção do machismo da sociedade. Menos evidente ainda é a relação que se estabelece entre uma reprodução sistemática de piadas racistas, por exemplo, ao longo de toda uma vida individual e realização de atos racistas efetivos, que talvez não seriam possíveis não tivesse ocorrida uma exposição regular a tais piadas. Evidentemente, não é tarefa simples mensurar de que forma, ainda nos mantendo neste escopo do humor, uma piada – ou melhor dizendo, a reprodução regular destas – contribui para a realização de um ato efetivo de racismo. Especialmente se considerarmos a tradição cultural brasileira de promover um racismo velado, indireto, onde raros são aqueles que assumem abertamente que são racistas. Em suma, as relações que se estabelecem entre estrutura e infraestrutura – e chamamos esta aqui de dimensão simbólica – em termos de manutenção e legitimação de assimetrias de poder é o que justifica pensarmos em responsabilidade discursiva; seguindo ainda um já aberto caminho de reflexões que cada vez mais ganha espaço nas discussões cotidianas.

Em terceiro lugar, a dimensão política. Eis aqui nada mais senão o desdobramento inevitável do que se apresentou nas linhas anteriores. Se a dimensão simbólica se relaciona com estruturas de dominação, discriminação e assimetria de poder, não seria nenhuma novidade dizer que a linguagem é o campo dos embates políticos. Fato é que muitas decisões políticas são tomadas entre quatro paredes, em salas reservadas, e que eventos políticos tais como a promulgação de leis, a assinatura de acordos e tratados e outras medidas institucionais específicas não se configuram como atos puramente simbólicos. No entanto, é com base nas interações cotidianas – propiciada, repitamos, pelos aparatos tecnológicos – que uma sociedade vai de pouco em pouco construindo o que se costuma chamar de opinião pública, elemento que, ao menos assim o dizem, assume um relevante peso nas decisões políticas de nossos representantes. Mas nossos olhares não devem aqui serem direcionados exclusivamente para a Realpolitik, mas para a dimensão política mais primordial de todo ato social. Político porque diz respeito a escolhas, escolhas estas que afetam a todos – mesmo no círculo das relações e interações privadas, dado que os discursos reproduzidos e legitimados no interior destas não simplesmente esvanecem quando os indivíduos encontram-se em público. Político porque diz respeito a sistemas axiológicos de compreensão da realidade e dos valores que a sustentam. Portanto, se a dimensão simbólica da realidade é, por definição, em si política – conquanto nem sempre o seja para si – não há como avaliar os espaços de confrontos políticos, como estes se realizam e que rumos eles tomam sem que haja uma análise precisa de como a linguagem é instrumentalizada politicamente. Nesse sentido, seja repetido, abre-se então uma prerrogativa para se avaliar o quão responsáveis somos por nossos enunciados em meio a estes espaços de conflito.
 
Blogger Templates